O advogado João André Buttini de Moraes, preso nesta quinta-feira (3), declarou ter ampliado seu patrimônio de R$ 30,5 milhões para R$ 314,2 milhões entre 2017 e 2024. O crescimento de dez vezes em sete anos foi identificado pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP), que investiga um esquema de corrupção na administração tributária do estado.
De acordo com o MP-SP, mais de 99% da renda informada por Buttini era formada por dividendos isentos de impostos pagos por empresas ligadas a ele. Os investigadores apontam o advogado como responsável pelo núcleo privado de uma organização criminosa que cobraria propina para interferir na análise e na liberação de créditos tributários.
A investigação afirma que Buttini buscava grandes contribuintes, definia honorários e oferecia facilidades. Parte dos valores recebidos teria sido encaminhada a agentes públicos para destravar, acelerar ou aprovar pedidos de ressarcimento de impostos.
Movimentação financeira
Entre janeiro de 2018 e novembro de 2025, as contas pessoais do advogado tiveram movimentação bruta de R$ 2,12 bilhões, conforme a quebra de sigilo bancário. O MP-SP ressalva que o cálculo inclui entradas e saídas dos mesmos recursos, além de resgates de investimentos, empréstimos e transferências entre contas do próprio investigado.
Após retirar essas operações, os investigadores chegaram a R$ 383,47 milhões recebidos efetivamente de terceiros, em uma média superior a R$ 48 milhões por ano. Desse montante, R$ 336,28 milhões, equivalentes a 87,7%, vieram de empresas relacionadas a Buttini, como o escritório Buttini de Moraes Sociedade de Advogados, a BM Tax, a BM Investimentos e a Juri Consultoria Empresarial.
O escritório teria distribuído R$ 80,15 milhões em dividendos ao advogado em 2023 e 2024. Somadas as empresas do grupo, as transferências superaram R$ 190 milhões no período analisado.
A apuração também identificou R$ 36,5 milhões enviados ao exterior. O valor é mais de oito vezes maior que os R$ 4,4 milhões declarados em uma conta no Itaú Miami. Os investigadores ainda apontaram a compra de uma propriedade chamada Mansão Tucumã, por R$ 33 milhões, e de imóveis em Itupeva avaliados em R$ 40 milhões, sem localizar nas contas analisadas os pagamentos correspondentes.
Cinco grandes empresas transferiram R$ 140,65 milhões ao escritório e às companhias associadas entre 2018 e 2025. Os pagamentos foram registrados como serviços jurídicos e consultoria tributária e, isoladamente, não indicam irregularidade. O MP-SP afirma, porém, que parte dos honorários poderia ter sido usada para subornar servidores. Os documentos não informam se as empresas contratantes sabiam dos supostos pagamentos ilícitos.
Relato sobre propina
Paulo Prado declarou ter recebido de Buttini R$ 13.600.200 entre 2021 e 2025 para acelerar pedidos tributários de clientes do escritório. Segundo o colaborador, R$ 4,5 milhões foram repassados a André Weiss, que comandou a Diretoria-Geral Executiva da Administração Tributária até maio deste ano. Weiss também foi preso preventivamente nesta quinta-feira (3).
As entregas, conforme o relato, eram feitas em dinheiro vivo dentro de mochilas, principalmente em restaurantes de Pinheiros. A Justiça informou, ao autorizar as prisões, que a colaboração é apoiada por documentos manuscritos, informações bancárias e fiscais, relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), mensagens de aparelhos eletrônicos e uma gravação ambiental periciada.
O MP-SP apura suspeitas de organização criminosa, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro. Os citados ainda não foram julgados.
A defesa de Buttini afirmou que ainda analisa os elementos da investigação e que apresentará esclarecimentos às autoridades após ter acesso integral aos autos.
A Secretaria da Fazenda e Planejamento informou que trabalha com o MP-SP desde o início da Operação Ícaro, em agosto de 2025. A pasta disse que cinco envolvidos foram demitidos, um foi exonerado e 17 servidores foram afastados sem remuneração. Também informou que autuações contra empresas resultaram na constituição de mais de R$ 3 bilhões em créditos tributários, multas e juros.



