Um grupo ligado a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, teria acessado informações sigilosas de investigações contra o banqueiro no Ministério Público Federal (MPF), na Polícia Federal (PF), na Polícia Civil e no Banco Central. A estrutura também teria buscado dados relacionados à Interpol e ao FBI.
As informações estão em um relatório da PF datado de 27 de fevereiro deste ano e enviado ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator da Operação Compliance Zero. O sigilo da investigação foi levantado após pedido do presidente do STF, ministro Edson Fachin.
Estrutura paralela
Segundo a PF, Vorcaro mantinha uma estrutura chamada “A Turma”, descrita como um grupo de vigilância, coerção privada e possível atuação criminosa. Um dos integrantes apontados é Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado no documento pelos nomes “Felipe Mourão” e “Sicário”.
O relatório afirma que Vorcaro pagava R$ 1 milhão por mês para manter o grupo. Mourão teria sido contratado para realizar acessos recorrentes e irregulares a procedimentos sigilosos, usando logins funcionais de terceiros. A PF também relata extração de documentos e consultas sem autorização em sistemas internos.
Um exemplo citado pelos investigadores ocorreu em 15 de fevereiro de 2024, quando Vorcaro encaminhou a Sicário uma mensagem sobre um inquérito policial na PF. Quarenta minutos depois, Mourão respondeu com um áudio do policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva. Na gravação, Marilson afirma que havia acionado a “Tropa” e que o pedido de Vorcaro receberia atenção especial.
A PF relata que Marilson tinha acesso ilícito aos sistemas do MPF. Ele foi preso no dia 4 de março, em Belo Horizonte, durante a 3ª fase da operação. Uma auditoria interna identificou que o acesso irregular partiu da Delegacia da Polícia em Juiz de Fora (MG).
Consultas sobre Vorcaro e o Master
Sicário teria enviado comprovantes de consultas feitas nos sistemas do MPF usando o CPF de Vorcaro. Os investigadores identificaram 15 procedimentos relacionados ao banqueiro, dos quais 11 eram sigilosos. Também foram feitas buscas com os termos “BRB AND MASTER”.
BRB é o Banco de Brasília, que era investigado pela compra de títulos financeiros fraudulentos do Master. Em uma conversa, uma pessoa demonstra preocupação de que a pesquisa chamasse atenção. Vorcaro responde: “Quero tudo. Atenção total”.
No dia seguinte, Sicário enviou ao banqueiro uma “Notícia de Fato” do MPF sobre a possibilidade de crime contra o sistema financeiro nacional na tentativa de compra do Master pelo BRB. A PF classificou o documento como de natureza reservada e apontou indícios de obtenção indevida.
O relatório também apresenta um print de 15 de setembro de 2025 que, segundo os delegados, indicaria acesso ao ePol, sistema oficial de Polícia Judiciária da PF reservado a policiais federais. A mensagem foi enviada a Sicário por Marilson e incluía uma cobrança sobre o pagamento mensal do grupo.
Interpol e FBI
A PF afirma que as evidências mencionam possível acesso a organismos internacionais, incluindo o FBI e a Interpol. Em 24 de outubro de 2025, Mourão teria encaminhado uma imagem com o logotipo da Interpol e mensagens sobre uma pesquisa, um relatório do FBI e a ausência de registros na Interpol.
A organização internacional informou à PF, no Brasil, que a identidade visual da tela não correspondia aos mecanismos de busca disponibilizados pela Interpol. A entidade, porém, ressaltou que a imagem poderia estar ligada a sistemas de outros países. A PF levantou a hipótese de que a consulta tenha sido feita por meio de um sistema estrangeiro com dados baixados da Interpol.
Os delegados afirmam que Vorcaro poderia ter buscado legalmente acesso aos autos da investigação, mas teria escolhido o caminho ilícito por meio da estrutura comandada por Sicário e com participação de Marilson.
O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central (BC) em 18 de novembro de 2025. De acordo com o BC, a decisão foi motivada por grave crise de liquidez, comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas. O BRB chegou a participar de tentativas de compra do Master, mas o Banco Central barrou a operação. Negócios entre os dois bancos deixaram o BRB em situação crítica, com necessidade de R$ 8,8 bilhões.
O relatório da PF também aponta um relacionamento ilícito entre Vorcaro e dois diretores do BC. O banqueiro foi preso em novembro de 2025 e novamente em março de 2026, por ordem do STF. A prisão segue mantida.
Sicário também foi preso e morreu dois dias depois, após uma tentativa de suicídio na prisão. Além dos acessos a informações, a PF afirma que ele era acionado para atos de violência, coação e intimidação, incluindo o planejamento e a possível execução de agressões físicas com mobilização de pessoas armadas.



