A saúde suplementar brasileira passa por um período de reorganização, marcado por fusões, aquisições, mudanças de controle, verticalização e concentração. Em julho de 2026, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) registrava 53,16 milhões de beneficiários em planos de assistência médica.
Entre o final de 2021 e início de 2022, cerca de 150 operações relevantes foram realizadas no setor. Entre elas estão a compra da SulAmérica pela Rede D’Or e a união entre NotreDame e Hapvida. Os movimentos refletem a busca das empresas por escala, diversificação, eficiência, capital e capacidade de investimento.
A reorganização também atingiu empresas tradicionais. Em 2025, a ANS decretou a liquidação extrajudicial da Vision Med Assistência Médica, operadora associada à marca Golden Cross, após problemas econômico-financeiros e administrativos.
O vínculo por trás dos números
Fusões e aquisições podem ampliar a infraestrutura, a capacidade de investimento e a sustentabilidade das organizações. A questão levantada é como essas transformações afetam a relação de confiança entre médico e paciente.
A chamada carteira de beneficiários representa pessoas, famílias e histórias de vida. Quem contrata um plano busca segurança em momentos de vulnerabilidade, além de acesso, qualidade e profissionais de confiança.
Na medicina, o cuidado costuma ser construído ao longo do tempo. Conhecer o histórico do paciente, acompanhar sua evolução e compreender diferentes fases da vida são elementos que integram essa relação. O vínculo pode envolver um pediatra que acompanha uma criança e depois atende seus filhos, um clínico que conhece o histórico familiar ou um especialista que segue o paciente por anos.
O modelo cooperativista médico é apresentado como uma alternativa baseada na participação dos profissionais. O médico cooperado mantém vínculo com a organização, participa de sua construção e divide a responsabilidade por sua sustentabilidade. A cooperativa, por sua vez, tem entre seus objetivos a valorização do trabalho médico e a qualidade da assistência.
Escala com proximidade
O cooperativismo não é associado apenas a pequenas estruturas ou à resistência à modernização. O Sistema Unimed reúne 336 cooperativas, 115 mil médicos cooperados, 19,5 milhões de clientes, mais de 30 mil hospitais, clínicas e serviços credenciados e 176 hospitais próprios. A rede está presente em 92% do território nacional.
Esses dados mostram uma operação de grande porte organizada por meio da cooperação, com a combinação de uma marca nacional e a atuação das cooperativas locais. A proximidade permite considerar características das comunidades, o perfil epidemiológico de cada região e as relações com médicos, empresas e famílias.
À medida que o setor se concentra, a proximidade pode ganhar importância. A discussão passa a envolver a possibilidade de ampliar a escala sem perder o vínculo, além de reconhecer relacionamento, continuidade e confiança como elementos estratégicos para as organizações de saúde.
O setor continuará passando por mudanças, com novas fusões, aquisições, reorganizações e modelos de negócio. A tecnologia também deve transformar a forma como médicos e pacientes se relacionam. Nesse cenário, permanecem como pontos centrais o compromisso com o paciente, a valorização do médico, a continuidade do cuidado e a responsabilidade com as comunidades.
Para o cooperativismo médico, a diferença está em uma organização criada para continuar existindo, crescendo e cuidando, e não para ser preparada para uma futura venda. Essa perspectiva busca preservar relações construídas entre médicos, pacientes e famílias ao longo do tempo.
Jorge Luiz Gonçalves Andrade é vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu.




