A pesquisa sobre envelhecimento precisa avaliar se as pessoas conseguem manter suas capacidades no dia a dia, e não apenas acompanhar doenças e resultados de exames. Para o geriatra Gustavo Monteiro, preservar a funcionalidade inclui permitir que a pessoa idosa se desloque, administre compromissos, mantenha relações, escolha o que fazer e participe das decisões sobre o próprio cuidado.
O que a ciência deve observar
Essa abordagem envolve investigar mobilidade, força muscular, cognição, humor, ambiente e relações sociais. Esses fatores ajudam a definir se uma pessoa continuará independente, segundo Monteiro, que é geriatra e integrante da banca avaliadora do Prêmio Amil de Medicina.
A mudança na forma de cuidar também aparece na orientação sobre movimento. Pessoas idosas com fraqueza ou risco de quedas já foram estimuladas a evitar escadas, sair pouco de casa e permanecer sentadas. Hoje, quando as condições clínicas permitem, a recomendação pode ser oposta: atividade física, fortalecimento muscular e movimento, inclusive durante uma internação hospitalar.
A perda de massa e força muscular, estudada no conceito de sarcopenia, está associada a quedas, fraturas e perda de independência. Exercícios e atenção à alimentação estão entre as intervenções que podem enfrentar parte desse processo.
Inovação também pode ser simples
Para Monteiro, tecnologia não se resume a medicamentos novos, equipamentos sofisticados ou procedimentos de alta complexidade. Ensinar uma pessoa idosa a usar um telefone celular pode ajudá-la a chamar um transporte, pedir uma refeição, comprar um medicamento e manter contato com familiares sem depender de outra pessoa para cada tarefa.
A inclusão digital, nessa perspectiva, também pode produzir um resultado relevante para a saúde quando promove autonomia e independência. A pesquisa deve verificar quais intervenções geram benefícios, para quem funcionam e em quais condições podem ser reproduzidas em escala.
Riscos durante o cuidado
O envelhecimento também precisa ser estudado considerando a multimorbidade. Uma pessoa acima dos 80 anos pode conviver com hipertensão, diabetes e cardiopatia ao mesmo tempo, sem que essas condições estejam separadas. Uma pneumonia, uma queda ou um medicamento inadequado pode romper um equilíbrio que estava estável e iniciar uma sequência de descompensações.
Por isso, um avanço importante pode estar na identificação antecipada de riscos. Evitar que alguém perca durante uma internação uma capacidade que talvez não consiga recuperar depois pode ser tão relevante quanto descobrir uma nova terapia.
A cognição continua entre as áreas com respostas insuficientes. A medicina conseguiu compensar várias limitações físicas, mas ainda há menos conhecimento sobre como prevenir de forma eficaz as demências e preservar a autonomia diante do declínio cognitivo.
Do estudo à vida real
Mesmo quando uma pesquisa demonstra benefício em um grupo acompanhado de perto, permanece o desafio de aplicar a estratégia no cotidiano. É preciso considerar diferentes rotinas, condições sociais, acesso aos serviços e possibilidades de adesão.
O Brasil envelheceu rapidamente, mas a preparação de profissionais, serviços e da sociedade não avançou necessariamente no mesmo ritmo. Para Gustavo Monteiro, a pesquisa em saúde precisa não só produzir conhecimento, mas transformá-lo em cuidado capaz de chegar a mais pessoas.
O Prêmio Amil de Medicina, ao reconhecer pesquisas sobre envelhecimento e multimorbidade, coloca essas questões em evidência. A avaliação de Monteiro é que os trabalhos devem demonstrar, com método e rigor científico, quais caminhos realmente preservam a funcionalidade.
Viver mais é uma conquista. O desafio apontado pelo geriatra é fazer com que mais pessoas cheguem aos anos adicionais de vida mantendo, pelo maior tempo possível, a capacidade de conduzir a própria história.




