A assistência à saúde no interior brasileiro enfrenta menor oferta de profissionais, dificuldades de infraestrutura e uma população mais espalhada. Com menos pacientes para sustentar estruturas de alta complexidade, diferentes setores procuram modelos que conciliem acesso, tecnologia e equilíbrio financeiro.
Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) indicam que 25% da população tem plano privado de assistência médica. A cobertura, porém, varia conforme o local. Em dezembro de 2010, alcançava 37,2% nas capitais, 20,5% nas regiões metropolitanas e 15,5% no interior. Em dezembro de 2025, os índices passaram para 40,9%, 24,6% e 19,7%, respectivamente.
Os maiores percentuais estão em estados do Sudeste, como São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, onde mais de 30% da população tem plano de saúde. Em Rondônia, Acre e Maranhão, a cobertura fica entre 5% e 10%. Em Roraima, é inferior a 5%.
Planos regionais e deslocamento
Para André Medici, economista e especialista internacional em economia e gestão de saúde, a concentração de empresas em áreas com maior estrutura restringe a oferta nas cidades muito pequenas. Nesse cenário, o paciente pode alternar entre o SUS e serviços particulares, de acordo com a complexidade e a disponibilidade do atendimento.
O sanitarista Gonzalo Vecina defende a distribuição dos serviços conforme as concentrações populacionais. Para ele, procedimentos mais complexos podem ser realizados em cidades próximas, para onde os pacientes aceitam se deslocar.
No setor suplementar, a rede credenciada é um dos principais fatores de diferenciação. Os planos vendidos no interior seguem as mesmas exigências de cobertura obrigatória dos comercializados nas capitais e regiões metropolitanas, mas operadoras menores têm mais dificuldade para absorver aumentos inesperados de despesas, afirma Gustavo Ribeiro, presidente da Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge).
A contratação de serviços em outras localidades, a necessidade de deslocamento e a falta de algumas especialidades aumentam a complexidade da operação. A Demografia Médica no Brasil 2025 aponta que as capitais concentram 366% mais médicos por mil habitantes do que o restante dos estados. A diferença entre capital e interior é maior no Nordeste, com índice de 7,32, seguido por Norte, com 5,07; Sul, com 4,37; Centro-Oeste, com 4,27; e Sudeste, com 2,78.
Omar Abujamra Junior, presidente da Unimed do Brasil, afirma que a incorporação de novas tecnologias também pesa sobre os hospitais do interior. A Lei nº 14.307/2022 determina que tecnologias aprovadas para incorporação no SUS sejam incluídas no rol da ANS em até 60 dias. Segundo ele, a velocidade pode superar a capacidade instalada de algumas regiões e favorecer a judicialização.
José Cechin, membro do Conselho Diretor do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), avalia que o avanço de grandes operadoras depende do crescimento das cidades, do aumento populacional e da instalação de indústrias. Enquanto isso, pequenas operadoras e cooperativas médicas permanecem mais presentes no interior.
Cartões, clínicas e atendimento digital
Cartões de desconto, cartões de benefício e serviços de pré-pagamento ocupam parte do espaço deixado pela baixa oferta de assistência em cidades menores. Estima-se que entre 40 e 60 milhões de pessoas usem esses serviços, embora não exista levantamento oficial sobre o segmento.
O dr.consulta oferece consultas a partir de R$ 45, além de assinaturas com pacotes de consultas, descontos em exames e medicamentos e procedimentos odontológicos. Massanori Shibara Jr., presidente da Associação Nacional das Empresas de Benefícios e Atenção Primária e Secundária (Anebaps) e CEO da empresa, afirma que a operação busca manter um centro de referência para cada região. Casos de maior complexidade são encaminhados para outra cidade com estrutura mais robusta.
O Cartão de TODOS começou a operar em 2001, em Ipatinga, no interior de Minas Gerais, e depois chegou a Belo Horizonte. A empresa oferece consultas a R$30 com clínico geral e a partir de R$ 40 com especialistas. O grupo estuda alternativas para atender municípios abaixo de 100 mil habitantes, incluindo o formato digital quando não houver viabilidade para uma unidade presencial.
As clínicas AmorSaúde atendem usuários do Cartão de TODOS. A rede tem 531 unidades pelo Brasil e combina novas clínicas com o aproveitamento de consultórios e negócios locais. Beatriz Brisotti, CEO da empresa, estima 70 mil consultas por mês e cerca de um milhão e meio de consultas presenciais.
Laboratórios e farmácias
Na medicina diagnóstica, a estratégia combina coleta local e processamento centralizado. Laboratórios menores podem enviar exames de média e alta complexidade para empresas de apoio, enquanto mantêm o atendimento direto nas cidades. O modelo também pode envolver convênios com prefeituras.
O Lab-to-Lab Pardini, do Grupo Fleury, apoia 8 mil laboratórios para nove mil exames e atende 2.200 municípios. As amostras são transportadas para uma das 16 áreas técnicas da rede, permitindo que estabelecimentos menores ofereçam exames sem investir em equipamentos próprios para cada procedimento.
As farmácias também aparecem como pontos de entrada para o sistema de saúde. O Brasil tem mais de 124 mil estabelecimentos do tipo, enquanto a Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) reúne mais de 11,4 mil unidades associadas em mais de mil cidades.
O programa Farmácia Popular oferece medicamentos gratuitos por meio de mais de 27 mil farmácias credenciadas. Criado em 2004, atende mais de 23 milhões de usuários e pode incorporar exames diagnósticos e telessaúde. Segundo o Ministério, um grupo de trabalho prepara propostas de modernização, com conclusão esperada até o fim de 2026 e implementação a partir de janeiro do próximo ano.
A Abrafarma também aponta o avanço dos canais digitais. Pesquisa da Federação Brasileira das Redes Associativistas e Independentes de Farmácias (Febrafar) com 4 mil consumidores mostra que 16,6% já fazem compras por esses meios. Outro levantamento indica que as vendas digitais das associadas da Abrafarma cresceram de R$13,16 bilhões para R$19 bilhões de 2024 a 2025, alta de 48,7%. A expansão depende da infraestrutura logística e da capacidade de entrega em áreas mais remotas.




