Comunidades de diferentes regiões do Brasil relatam mudanças nas marés e impactos do avanço do oceano. No Amapá, moradores da praia do Goiabal, em Calçoene, já decidiram deixar a área depois que o mar destruiu casas e avançou sobre a costa.
Na foz do rio Amazonas, análises do programa Copernicus indicam que o nível do mar subiu, em média, 12,4 cm em 31 anos. A duração das inundações também aumentou. Desde 2024, todos os meses tiveram marés acima da cota de alerta na região.
Sinais em diferentes regiões
Os relatos variam conforme o trecho do litoral. No Nordeste, jangadeiros falam em “marés grandes”. No Norte, ribeirinhos e açaízeiros próximos da costa usam a expressão “marés lançantes”. No Sudeste, moradores da Ilha do Cardoso deixam casas ameaçadas pela elevação da água.
Em Santa Catarina, um tsunami meteorológico fez o mar subir de forma abrupta e inundou três municípios. O episódio levou o tema a mais pessoas, em um cenário de eventos extremos associados ao aquecimento do oceano.
Dados produzidos pela agência espacial europeia por meio do Copernicus mostram que a temperatura da superfície do mar está acima do registrado em outros anos para este período. A linha referente a 2026 se afastou das demais e permaneceu elevada ao longo dos meses.
O oceano absorve a maior parte do calor da atmosfera. Com mais energia no sistema, ventos, chuvas e secas se intensificam, de acordo com a análise apresentada. A temperatura da superfície do mar está mais alta do que em 125 mil anos, segundo a mesma referência.
Elevação e adaptação
As pesquisas do Copernicus apontam que, no período de 1993-2022, o nível médio global do mar subiu, em média, 3,3 mm por ano. O aumento acumulado foi de 9,57 cm durante esse período, e a taxa de crescimento está acelerando.
Além da água resultante do derretimento das zonas congeladas, a expansão térmica do mar contribui para a elevação do nível oceânico. O aumento do volume equivale, a cada ano, à adição de 480 milhões de piscinas olímpicas ao oceano.
No Amapá, o Instituto de Pesquisas do Estado, o IEPA, e a Universidade Estadual do Amapá (UEAP) criaram o Observatório Popular do Mar (Omara). A iniciativa reúne pesquisadores e comunidades para medir a erosão causada pelo avanço do mar e a salinização de rios e fontes de água.
A intrusão salina pode reduzir a disponibilidade de água potável e afetar manguezais, peixes e crustáceos. O trabalho utiliza ciência cidadã para acompanhar essas mudanças nas áreas influenciadas pelo mar amazônico.
Mesmo com a interrupção das emissões de carbono, o aquecimento global em curso deve provocar uma elevação ainda maior do nível do mar nas próximas décadas. Rio, Florianópolis, Belém e Fortaleza estão entre as cidades que terão de lidar com esse avanço. O cenário também é citado em meio à eleição presidencial, com cobrança por medidas de adaptação às mudanças climáticas.



