SÃO PAULO — Os fundos de investimento em direitos creditórios (Fidcs) foram os que mais avançaram entre as principais categorias do mercado brasileiro, com alta acumulada de 810% até março deste ano. O crescimento ampliou o uso dessas estruturas no financiamento de empresas e também levantou preocupações sobre a identificação de devedores, investidores e beneficiários finais.
Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) indicam que foram criados 3.757 Fidcs, acima dos novos fundos de renda fixa, previdência e ações. Nos 12 meses até julho, foram quase dois por dia. O patrimônio da categoria chegou a R$ 960 bilhões, segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Os Fidcs compram, com desconto e pagamento à vista, títulos que serão quitados no futuro. Entre os exemplos estão duplicatas, faturas de cartão de crédito, cheques, carnês de lojas, contratos de aluguel e créditos de empresas em dificuldade. Como podem reunir papéis de muitos credores, a avaliação sobre a qualidade dos recebíveis e o histórico do crédito se torna mais difícil para quem está fora da operação.
O Banco Central informou que o Comitê de Estabilidade Financeira vê dificuldade crescente para avaliar os riscos assumidos no mercado de crédito quando os fundos aparecem em cadeias múltiplas, especialmente com o avanço dos Fidcs. O economista Marcos Lisboa afirmou: “É motivo de preocupação a expansão desses fundos para financiar empresas”.
O aumento dos Fidcs ocorreu enquanto bancos ficaram mais seletivos na concessão de empréstimos, em meio ao crescimento da inadimplência. Na recuperação judicial da Casas Bahia, o Fidc IBCB-AF01 aparece entre os maiores credores, com mais de R$ 1 bilhão a receber.
A IIFA, Associação Internacional de Fundos de Investimento, reúne informações de 44 jurisdições. No levantamento, a quantidade de fundos regulados no Brasil passou de 14,4 mil em 2014 para 32,3 mil ao final do primeiro trimestre deste ano. A Coreia do Sul tinha 17,3 mil ao final de março.
A estatística considera fundos abertos, com cotas resgatáveis e limites destinados à proteção dos cotistas. Fundos de private equity e hedge funds dos Estados Unidos ficam fora dessa comparação; segundo a Securities and Exchange Commission (SEC), eles somavam 58.891 ao final de 2025.
Entre as estruturas brasileiras contabilizadas estão os fundos de investimento em participações (FIPs), que podem comprar participação em empresas listadas ou não. Em uma cadeia de fundos e empresas, pode ser mais difícil identificar o investidor real. Os multimercados, por sua vez, têm liberdade para combinar renda fixa, ações, crédito, derivativos e cotas de outros fundos, inclusive com alavancagem.
A Polícia Federal investiga o uso de fundos em diferentes operações. Deflagrada em 6 de agosto, a Operação Heritage apura peculato e lavagem de dinheiro em um suposto desvio de R$ 308 milhões envolvendo um acordo entre a Oi e o governo de Mato Grosso. Os alvos negam irregularidades.
A Operação Carbono Oculto, de agosto de 2025, analisa 40 fundos suspeitos de dissimular patrimônio e lavar dinheiro de pessoas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Alguns deles também integraram o esquema investigado no caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro, conforme denúncia do Banco Central. Os fundos eram administrados pela Reag, gestora liquidada pelo BC.
O delegado da Polícia Federal Alexandre Custódio Neto disse que estruturas com várias camadas e protegidas por sigilo dificultam a identificação do dono do dinheiro. O promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público do Estado de São Paulo, afirmou que fundos apareceram em operações contra o PCC, incluindo Fim da Linha, Hydra e Última Parada.
A expansão foi associada a mudanças regulatórias e tributárias. A Lei da Liberdade Econômica, de setembro de 2019, ampliou a segurança jurídica para cotistas e prestadores de serviço. Em 2022, a lei n.º 14.430 tratou da securitização de recebíveis, enquanto a resolução 175 da CVM reorganizou as regras dos fundos e incluiu os Fidcs.
O Brasil também lidera em fundos de fundos, com 10,7 mil estruturas, equivalentes a 33,1% do total. A Coreia do Sul tinha 2.000, ou 11,9%, e os Estados Unidos, 1.268, ou 10%. Para o advogado Bruno Becker, professor da ESPM, até 67% dos fundos têm no máximo cinco cotistas, e 44% têm apenas um.



