A indústria de fundos direcionou R$ 53,9 bilhões líquidos para a renda fixa em agosto, levando o acumulado do ano a R$ 239,8 bilhões. O movimento ocorreu no mesmo mês em que o IPCA registrou deflação de 0,32%.
Os dados são do DataWatch, monitor mensal de fluxos e da estrutura a termo da DataBay. O levantamento mostra que a renda fixa teve, em agosto, o terceiro maior volume mensal de captação do ano, atrás apenas de fevereiro e janeiro.
Fluxos dos fundos e da Bolsa
Os fundos multimercados tiveram resgate de R$ 5,6 bilhões em agosto, o terceiro consecutivo. Nos três meses, as retiradas somaram R$ 21,1 bilhões, levando o resultado acumulado do ano para o campo negativo, em R$ 10,7 bilhões.
Os fundos de ações também interromperam uma sequência de cinco meses de captação positiva. O resgate foi de R$ 163 milhões.
Na Bolsa, investidores estrangeiros retiraram R$ 18,1 bilhões em agosto, a maior saída de 2026. O valor foi 22% superior ao pior resultado mensal anterior. Com isso, o saldo comprador estrangeiro acumulado no ano caiu de R$ 36,4 bilhões, ao fim de julho, para R$ 18,3 bilhões.
Na outra ponta, investidores institucionais absorveram R$ 11,4 bilhões, enquanto pessoas físicas compraram R$ 2,1 bilhões. A pessoa física manteve o sexto mês consecutivo de compras.
Inflação e juros
A deflação de agosto foi influenciada principalmente por habitação, transportes e alimentação. O grupo habitação recuou 1,87%, menor resultado para um agosto desde o Plano Real. A energia elétrica residencial ficou 7,63% mais barata após o crédito do bônus de Itaipu.
Transportes tiveram queda de 0,86%, com passagens aéreas 13,17% abaixo e recuos nos preços de etanol, diesel e gasolina. Alimentação caiu 0,34%, pressionada por hortaliças. A batata-inglesa ficou 19,89% mais barata. Em doze meses, o IPCA acumulou alta de 4,22%.
A Selic permanece em 14% ao ano. No Boletim Focus de 31 de agosto, as projeções apontavam IPCA de 5,01% para 2026 e de 4,28% para 2027. O relatório também projetava Selic de 12% no fim do próximo ano.
No fechamento de 9 de setembro, as NTN-B ofereciam juro real de 7,68% para 2035 e de 7,47% para 2040. No mesmo dia, o Brent superou US$ 100 por barril pela primeira vez desde julho, em meio à escalada do conflito envolvendo o Irã e ao risco para o transporte pelo Estreito de Ormuz.
Onde a curva de juros concentrou o prêmio
A análise da curva de juros indica que a reprecificação de agosto ficou concentrada em um trecho específico. Nas taxas forward de um ano extraídas da estrutura a termo do DI, o primeiro ano fechou 18 pontos-base, acompanhando o ciclo de política monetária.
A abertura maior ocorreu entre um e sete anos, com pico de 16,2 pontos-base no intervalo de 2028 a 2029. Já a faixa de sete a dez anos praticamente não se alterou.
O monitor ressalva que a estabilidade do trecho mais longo teve magnitude semelhante à de uma única sessão de negociação, o que impede uma conclusão segura sobre sua direção. A coincidência entre a maior abertura e o horizonte do próximo mandato também é compatível com a hipótese de prêmio fiscal, mas não comprova essa explicação.
Na prática, o juro real elevado nos títulos longos pode refletir um risco concentrado em determinado período, e não necessariamente a expectativa de uma taxa permanentemente mais alta. Para quem mantém o título até o vencimento, o retorno real contratado é preservado. Quem vende antes fica sujeito à marcação a mercado.
Duas estratégias com horizontes diferentes
Uma posição em índice ou em setores baseada no resultado eleitoral é de curto prazo, tem liquidez para ser desfeita e concentra o risco em poucas semanas. Já o investimento em juro real acima de 7% ao ano por dez ou quinze anos tem horizonte mais longo e depende da permanência do título até o vencimento ou da oscilação de seu preço durante o período.
Os fluxos de agosto mostram escolhas distintas. A indústria concentrou recursos na renda fixa e registrou novo resgate em multimercados. Ao mesmo tempo, a pessoa física continuou comprando ações pelo sexto mês seguido, enquanto investidores estrangeiros fizeram a maior retirada do ano na Bolsa.



