SÃO PAULO — A disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro tem levado investidores a procurar ativos considerados mais seguros e a diversificar suas carteiras. A avaliação de analistas é que uma eleição competitiva pode aumentar as oscilações dos mercados e favorecer estratégias com menor exposição ao risco.
Na renda fixa, as recomendações incluem títulos públicos e Certificados de Depósito Bancário (CDBs) atrelados à Selic ou ao CDI. Esses investimentos acompanham índices de referência e tendem a sofrer menos com as variações de preço provocadas pelas expectativas para os juros futuros.
Opções para diferentes perfis
João Ferreira, sócio da One Investimentos, afirma que o ajuste depende da estrutura atual da carteira. Para quem já distribui os recursos entre diferentes classes de ativos, a mudança pode ser mais pontual. Já os investidores concentrados em uma única tese devem considerar a diversificação.
Na renda variável, Ferreira aponta empresas de serviços públicos, como as dos setores de saneamento e energia, além da construção voltada à baixa renda. Essas companhias podem ter receitas vinculadas à inflação ou estar relacionadas ao Minha Casa, Minha Vida, descrito por ele como uma política de Estado.
“São ativos que não variam tanto”, diz Ferreira sobre os papéis ligados à Selic e ao CDI. Para investidores mais arrojados, a eleição também pode abrir espaço para ativos associados às políticas econômicas esperadas para cada candidato.
Relatório do BTG, elaborado com base em conversas com gestores, aponta expectativa de uma eleição competitiva e de carteiras com risco relativamente controlado. As ações da Petrobras são tratadas como consenso entre os investidores, independentemente do resultado das urnas. O banco também cita B3, XP, BTG Pactual, Rede D’Or, Cyrela e Motiva como empresas que poderiam se beneficiar de uma interpretação positiva do desfecho eleitoral.
O Citibank projetou carteiras para os cenários de vitória de Lula e Flávio Bolsonaro. Para um governo Lula, o banco destaca Cury Construtora, Embraer, WEG e BTG Pactual. Para um eventual governo Flávio, cita Cyrela, Assaí, Hapvida, Petrobras, Vale e B3.
Mercado reage ao cenário político
A alta do petróleo, o fluxo para empresas brasileiras de commodities e o acirramento da corrida eleitoral impulsionaram ativos domésticos. Parte do mercado avalia que uma alternância de poder poderia levar a uma condução fiscal mais sólida e reduzir a percepção de risco.
Uma trajetória da dívida vista como mais controlada pode diminuir o prêmio exigido pelos investidores para financiar o governo e aliviar a pressão sobre os juros. Taxas mais altas encarecem o crédito para empresas e reduzem a expectativa de lucro das companhias, com impacto potencial sobre a Bolsa.
Em agosto, a Bolsa caiu 0,32% e o dólar subiu 2,21%. Em setembro, o Ibovespa avançou 6,4% e o dólar recuou 0,25%. Dados da B3 mostram saldo positivo de R$ 9,6 bilhões entre compras e vendas de ações por investidores estrangeiros em setembro até o dia 22, contra saída de R$ 18,1 bilhões em agosto. No ano, o saldo positivo chega a R$ 32,6 bilhões.
O Datafolha divulgado em 21 de agosto apontou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio Bolsonaro com 33%. No levantamento de 24 de setembro, os percentuais eram de 40% e 36%, respectivamente. A diferença ficou dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Ainda há incerteza sobre a política econômica dos dois candidatos. Flávio Bolsonaro defende ajuste fiscal sem mudanças na Previdência ou na política de valorização do salário mínimo. O governo Lula propõe reduzir o ritmo de crescimento dos gastos obrigatórios e aprimorar o arcabouço fiscal.
Para a XP, a definição das medidas após a eleição pode provocar mais dispersão nos mercados do que o próprio período eleitoral. A composição da equipe econômica, as políticas adotadas e os primeiros sinais sobre os gastos públicos estão entre os fatores observados pelos investidores.



