O Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG) completa 90 anos em 2026 diante de juros elevados, custos pressionados e sinais de desaceleração dos lançamentos imobiliários. A entidade representa aproximadamente 13 mil empresas distribuídas em 545 municípios e reúne mais de 360 mil empregos formais.
A construção civil responde por aproximadamente 15% do Produto Interno Bruto (PIB) da indústria de Minas Gerais. No cenário nacional, dados da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) indicam uma previsão de crescimento de 1,2% para o setor em 2026. No segundo trimestre, a construção registrou R$ 105,3 bilhões em valor adicionado no país.
No primeiro semestre, o setor respondeu por cerca de 19% dos novos empregos com carteira assinada criados no Brasil. Minas Gerais foi o segundo Estado que mais abriu vagas na construção, com 21.605 novos postos de trabalho.
Juros afetam lançamentos e vendas
Para Raphael Lafetá, presidente do Sinduscon-MG, a cadeia da construção envolve cerca de 42 setores, incluindo fornecedores de aço, cimento, cerâmica, metais e plástico. O ciclo longo de produção, porém, aumenta o impacto das taxas elevadas sobre as empresas.
A compra de um terreno pode ocorrer anos antes da entrega do empreendimento. Com juros altos por períodos prolongados, a rentabilidade diminui e a capacidade de reinvestimento fica comprometida. “A atividade, ao trabalhar com uma taxa de juros tão elevada e há tanto tempo, isso vai corroendo a rentabilidade”, afirmou Lafetá.
Depois de muitos lançamentos em 2025, o mercado imobiliário mineiro manteve esse ritmo no início de 2026, mas os dados mais recentes apontam queda nos lançamentos e desaquecimento das vendas. No segmento de maior renda, o custo do financiamento reduz a disposição dos consumidores para assumir contratos de 20 ou 25 anos.
No mercado de interesse social, as taxas são menores e houve o acréscimo de R$ 500 milhões nos subsídios do programa Minha Casa, Minha Vida para 2026. Ainda assim, o aumento do custo de vida e o endividamento das famílias reduzem a capacidade de compra.
O presidente do sindicato também manifesta preocupação com 2027, quando as empresas precisarão entregar empreendimentos vendidos em 2026 em um cenário de custos altos.
Demanda por moradias supera oferta
Apesar das dificuldades, Lafetá avalia que o setor mantém perspectiva positiva por causa da diferença entre a formação de novas famílias e a oferta de moradias. O país produz atualmente entre 600 mil e 700 mil unidades por ano, enquanto a necessidade anual fica entre 1 milhão e 1,2 milhão de moradias.
Na avaliação do dirigente, a retomada depende de juros menores, segurança jurídica e previsibilidade. Ele também defende a redução da burocracia, além do avanço da padronização e da industrialização da construção para elevar a produtividade e diminuir custos.
Regras diferentes entre municípios e exigências distintas dos corpos de bombeiros estaduais dificultam a produção em escala. A digitalização das aprovações, regularizações e procedimentos cartoriais é apontada como uma forma de aumentar a eficiência.
Entidade amplia atuação
O Sinduscon-MG alcança mais de 500 cidades e representa empresas do setor perante órgãos municipais, estaduais e federais. A entidade também atua na capacitação de trabalhadores e empresas, na discussão de leis e na interlocução técnica com o poder público.
Durante a pandemia de Covid-19, o sindicato defendeu a manutenção da construção civil como atividade essencial. Entre os pontos destacados por Lafetá estão a continuidade das obras de hospitais e infraestrutura e a participação dos trabalhadores na divulgação de informações sobre prevenção e segurança.
Em 2025, o Sinduscon-MG lançou o Sinduscon-MG Lab, voltado à inovação e à competitividade. A entidade mantém ainda uma diretoria de meio ambiente desde 2021, com atuação relacionada a sustentabilidade, eficiência energética, gestão de resíduos e uso racional dos recursos naturais.
A mudança no perfil das cidades e das famílias também exige imóveis menores e mais próximos de áreas de trabalho, lazer e transporte público. O sindicato relaciona essa transformação a novas soluções em arquitetura, materiais, conforto térmico e acústico, iluminação e eficiência das edificações. Lafetá cita a norma de desempenho como referência nacional para a qualidade das habitações.
Ao completar nove décadas, a entidade busca conciliar a defesa do setor com a preparação de empresas e trabalhadores para mudanças tecnológicas, regulatórias e ambientais. Para o presidente, a construção está ligada ao desenvolvimento social.



