WASHINGTON — Donald Trump recebeu Xi Jinping na Casa Branca nesta quinta-feira, 24, na primeira visita do líder chinês a Washington em onze anos. Antes da reunião, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, anunciou a extensão da trégua comercial entre os dois países até 10 de janeiro de 2027.
O acordo havia sido firmado em outubro do ano passado, na Coreia do Sul, e venceria em 10 de novembro. A prorrogação acrescenta dois meses ao prazo, mas não resolve as disputas envolvendo chips, terras raras e Taiwan. Bessent afirmou que, até janeiro, os países podem chegar a um pacote mais amplo ou apenas adiar novamente o vencimento.
A trégua anterior reduziu de 57% para 47% a tarifa média dos Estados Unidos sobre produtos chineses. Pequim suspendeu restrições às terras raras e se comprometeu a retomar as compras de soja americana. Também foram anunciados um conselho bilateral para proteger bens de consumo de baixa tecnologia e produtos agrícolas e um mecanismo de comunicação sobre incidentes graves com inteligência artificial.
Efeitos para o Brasil
A China comprou US$ 100 bilhões do Brasil em 2025, e a soja representou mais de um terço desse valor, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China. No mesmo ano, as exportações brasileiras do produto para a China corresponderam a cerca de 74% do total importado pelo país asiático.
A China deverá comprar 25 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos por ano até 2028. A meta anterior era de 12 milhões. Com a reaproximação entre Washington e Pequim, o produtor brasileiro passa a enfrentar não apenas a concorrência por preço e qualidade, mas também os efeitos de acordos políticos.
Em 18 de setembro, a Abiove reduziu sua projeção de exportação de soja para 2026, de 115,4 para 115 milhões de toneladas. A entidade relacionou o corte ao aumento das compras chinesas nos Estados Unidos antes da visita de Xi. Ainda assim, a previsão indica crescimento de 6,3% em relação a 2025. De janeiro a agosto, 70% da soja brasileira vendida ao exterior teve a China como destino.
As terras raras formam outro ponto de atenção. O Brasil tem uma das maiores reservas do mundo e uma produção ainda incipiente. Uma eventual retomada das restrições chinesas às exportações pode elevar o interesse por projetos brasileiros de minerais críticos, com impacto sobre empresas do setor e sobre o investimento estrangeiro direto.
Risco geopolítico e calendário brasileiro
O cenário também afeta o custo de capital. Quando aumenta a tensão entre as duas maiores economias do mundo, investidores globais reduzem a exposição a mercados emergentes, pressionando o câmbio e os juros longos no Brasil. A extensão da trégua pode aliviar esse prêmio no curto prazo, mas o prazo adicional é limitado.
Dois dias antes do encontro em Washington, na abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que “quando os governos capitulam frente aos que usam tarifas como armas de coerção e chantagem, as consequências são nefastas”. Também disse que o país não cederá “às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso PIX”.
A política brasileira tem buscado manter relações comerciais com Estados Unidos e China sem aderir a nenhum dos dois lados. Essa posição pode favorecer o país quando as potências se afastam, como ocorreu com a soja em 2025, mas também pode trazer custos quando elas fecham acordos que redistribuem mercados ou exigem alinhamento.
Com a prorrogação, a trégua vencerá em 10 de janeiro de 2027, cinco dias depois da posse do próximo presidente brasileiro, marcada para 5 de janeiro. O novo governo começará justamente na semana em que poderá ser definida uma nova escalada ou acomodação na disputa comercial entre Washington e Pequim.



