A falta de dados sobre meninas, crianças negras, indígenas e grupos socialmente vulneráveis dificulta medir como diferentes perfis chegam ao diagnóstico de autismo no Brasil. Essa é uma das conclusões de uma revisão de pesquisas liderada pelo Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe.
Alguns estudos analisados tinham amostras formadas por até 97% de meninos. Para os pesquisadores, essa concentração limita o conhecimento sobre a trajetória diagnóstica das meninas e sobre possíveis diferenças na identificação do Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Também não há informações suficientes para determinar se crianças negras, indígenas ou pertencentes a grupos socialmente vulneráveis enfrentam obstáculos adicionais. “Com esse nível de ausência de dados, nós simplesmente não conseguimos medir adequadamente se crianças negras, indígenas ou pertencentes a determinados grupos sociais enfrentam trajetórias diagnósticas diferentes”, afirma Bianca Sallum, uma das autoras da revisão.
Uma espera que pode durar anos
O levantamento reuniu oito estudos, com dados de mais de 24 mil participantes. O maior intervalo encontrado foi de até 49 meses entre a primeira preocupação dos cuidadores e a confirmação do diagnóstico em serviços especializados.
Publicado em agosto de 2026 na revista científica Children, o trabalho indica que a demora pode se acumular em várias etapas. A família pode notar alterações no desenvolvimento, mas a preocupação nem sempre leva a uma investigação estruturada. Depois, ainda podem ocorrer atrasos no encaminhamento e filas para a avaliação com um especialista.
A revisão aponta como obstáculos a dificuldade de transformar o relato dos responsáveis em investigação clínica, a ausência ou o uso insuficiente de ferramentas estruturadas para acompanhar o desenvolvimento, o encaminhamento tardio e a falta de fluxos entre os diferentes níveis de atendimento.
Atenção primária e encaminhamento
Os pesquisadores afirmam que o problema não deve ser entendido como falha individual de pediatras ou de profissionais da atenção básica. A organização dos serviços também envolve capacitação, acompanhamento do desenvolvimento infantil e definição de caminhos para encaminhar os casos.
Para a equipe, fortalecer a atenção primária pode reduzir parte dessas barreiras. Pediatras e profissionais que acompanham as crianças desde os primeiros anos podem observar o desenvolvimento, ouvir os cuidadores e identificar situações que exigem investigação mais detalhada.
Outra medida apontada é ampliar o uso de ferramentas estruturadas de vigilância do desenvolvimento e rastreio durante as consultas pediátricas. A identificação de uma criança em risco, porém, precisa ser acompanhada por uma rede preparada para receber o caso e realizar o encaminhamento adequado.
“A família pode perceber sinais precocemente, mas essa preocupação não necessariamente gera uma avaliação mais estruturada”, explica Sallum. Segundo a pesquisadora, a demora pode resultar da combinação entre preocupações sem resposta, oportunidades de rastreio não aproveitadas, encaminhamentos tardios e filas.



