Uma revisão de estudos liderada pelo Instituto de Pesquisa Pelé Pequeno Príncipe identificou que crianças podem esperar até 49 meses pela confirmação clínica do Transtorno do Espectro Autista (TEA) em serviços de nível terciário no Brasil.
O levantamento aponta que o atraso começa quando as preocupações dos cuidadores não resultam em uma avaliação organizada. A falta de acompanhamento sistemático do desenvolvimento e as dificuldades para encaminhar os casos a especialistas também prolongam o caminho até o diagnóstico.
De acordo com os pesquisadores, muitas famílias reconhecem sinais de possível autismo e procuram atendimento, mas encontram uma rede que nem sempre dispõe de treinamento, protocolos e fluxos definidos. Com isso, oportunidades de rastreio são perdidas, os encaminhamentos demoram e novas filas surgem na chegada aos neurologistas e psiquiatras dos serviços terciários.
Mara L. Cordeiro, autora e coordenadora do estudo, afirmou que “Dois ou três anos na vida de uma criança pequena é muito tempo”, porque esse período envolve intenso desenvolvimento. Para ela, a identificação mais cedo permite o acesso antecipado a intervenções.
Relato das famílias e falhas na rede
Os autores defendem que a observação dos cuidadores deve iniciar a investigação clínica. A ideia de que cada criança tem seu próprio ritmo pode descrever variações esperadas, mas não deve encerrar a apuração quando há sinais que preocupam a família.
Bianca Sallum, uma das autoras, descreveu o processo como cumulativo: uma preocupação sem resposta pode ser seguida pela perda de oportunidades de rastreio, por encaminhamentos tardios e por filas. O estudo não atribui o problema individualmente a pediatras ou profissionais dos postos de saúde, mas a falhas na capacitação, na vigilância do desenvolvimento e na organização dos encaminhamentos.
A revisão também encontrou limitações nos dados disponíveis. Algumas pesquisas tinham amostras formadas por até 97% de meninos, reduzindo a compreensão sobre a trajetória diagnóstica de meninas com TEA. Há ainda poucas informações sobre raça e sobre pacientes que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente fora do eixo Sul-Sudeste.
Segundo Sallum, a falta desses indicadores impede medir adequadamente se crianças negras, indígenas ou de grupos socialmente vulneráveis enfrentam barreiras diferentes até o diagnóstico.
Para reduzir a espera, o estudo recomenda fortalecer a atenção primária, capacitar as equipes e usar ferramentas estruturadas de vigilância e rastreio nas consultas pediátricas. A rede também precisa estar preparada para avaliar os casos identificados e encaminhá-los com agilidade. A escuta das famílias, associada a protocolos claros, é apontada como forma de evitar oportunidades perdidas e ampliar o acesso aos cuidados.




