O Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou as opções de tratamento para a anemia por deficiência de ferro, mas o protocolo oficial usado como referência pelo Ministério da Saúde ainda é de 2014. A situação permanece em 2026, apesar de uma atualização ter avançado após consultas públicas e recebido recomendação favorável da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).
A reposição de ferro por via oral continua entre as principais estratégias contra a doença. No entanto, alguns pacientes não respondem ao tratamento ou não conseguem tolerá-lo por causa de intolerância, contraindicações ou falha terapêutica. Nesses casos, podem ser necessárias alternativas administradas por via intravenosa.
Nos últimos anos, o SUS incorporou três opções. Em 2023, passaram a fazer parte do sistema a ferripolimaltose e a carboximaltose férrica. Em 2024, a derisomaltose férrica também foi incluída entre os tratamentos disponíveis.
Atualização ainda não aparece no protocolo oficial
As incorporações exigiram a revisão do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) de Anemia por Deficiência de Ferro, documento que define parâmetros para diagnóstico, tratamento e acompanhamento na rede pública.
A primeira atualização foi submetida a consulta pública em 2023. Depois da inclusão da derisomaltose férrica, uma nova versão ficou disponível para contribuições da sociedade entre 19 de dezembro de 2024 e 7 de janeiro de 2025. Após a análise das contribuições, a proposta recebeu recomendação favorável da Conitec em fevereiro de 2025.
Apesar desse processo, o documento disponibilizado na página oficial do Ministério da Saúde como referência continua sendo a versão de 2014. A diferença entre as decisões de incorporação e o protocolo publicado pode dificultar a aplicação das opções atualizadas na rede pública.
“Houve mobilização, escuta da sociedade, avaliação das tecnologias e avanço na atualização das diretrizes. O próximo passo é acompanhar como esse processo se traduz na prática”, afirma Carolina Cohen, fundadora da Colabore com o Futuro.
Participação de pacientes
A Colabore com o Futuro atuou nas consultas públicas relacionadas à anemia por deficiência de ferro por meio da campanha Juntos Somos Mais Fortes. A iniciativa mobilizou pacientes e organizações para levar aos processos institucionais a perspectiva de pessoas que convivem com a condição.
O negócio social trabalha com mobilização, participação de pacientes, informação, conscientização e diálogo com tomadores de decisão na área da saúde. A proposta também inclui acompanhar o que acontece depois da participação social e das decisões tomadas pelos órgãos responsáveis.
A anemia por deficiência de ferro pode provocar cansaço, fraqueza, palidez, tontura e falta de ar, com impacto nas atividades cotidianas e na qualidade de vida. A relevância do tema também aparece nos dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS) de 2006: a prevalência de anemia foi de 20,9% entre crianças menores de cinco anos e de 29,4% entre mulheres em idade fértil.
Para Carolina Cohen, acompanhar a implementação é parte do processo. “Participar de uma consulta pública é importante, mas não é o ponto final.” A permanência de um protocolo antigo como referência oficial evidencia a distância entre a aprovação de uma medida e sua aplicação no cuidado oferecido à população.




