A dívida pública brasileira chegou a R$ 10,9 trilhões no fim de agosto, equivalente a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), informou o Banco Central. A maior parcela do aumento, porém, está relacionada aos juros pagos aos credores, e não às despesas primárias do governo, como saúde, educação e Bolsa Família.
A nota do BC registra déficit primário de 0,67% do PIB em doze meses. No mesmo período, os juros somaram R$ 1,15 trilhão, ou 8,67% do PIB. A despesa financeira foi 13 vezes maior que o resultado negativo das contas públicas.
Dívida em moeda nacional
A análise também contesta a comparação entre o orçamento do governo e o orçamento de uma família. O Tesouro brasileiro emite a moeda em que a maior parte de sua dívida está denominada. Na década de 1980, o país enfrentou dificuldades ao dever em dólares, moeda que não emite.
O Relatório Mensal da Dívida de julho de 2026 aponta que a Dívida Pública Federal era de R$ 9,28 trilhões, com 3,65% sujeita a algum tipo de indexação cambial. A dívida externa federal era de US$ 67 bilhões, enquanto as reservas internacionais somavam US$ 370 bilhões.
Durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, entre 2003 e 2006, o Brasil liquidou sua dívida externa com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e passou a ser credor da instituição.
Comparações com outras economias
A relação entre dívida e PIB também depende da forma de cálculo. A dívida bruta considera os passivos do governo sem descontar ativos, como as reservas internacionais. Pela metodologia do FMI, o indicador brasileiro chega a 96,5% do PIB.
Dados divulgados pelo FMI em abril de 2026 mostram índices superiores em outras economias: Japão, 206,5%; Itália, 138,4%; Estados Unidos, 125,8%; França, 118,4%; e Reino Unido, 103,6%. A média das economias avançadas era de 108,2%, e a mundial, de 95,3%.
A análise argumenta que o nível da dívida, isoladamente, não determina o risco de um país. A agência Moody’s atribuía nota A1 ao Japão e Ba1 ao Brasil, apesar de a dívida japonesa ser maior em relação ao PIB.
O efeito da Selic
Nos dois primeiros governos Lula, a despesa primária federal passou de 15,9% para 18,2% do PIB, enquanto a dívida líquida caiu de 59,9% do PIB em 2002 para 38% em 2010.
Depois da Emenda Constitucional 95, que congelou a despesa federal em termos reais a partir de 2017, a dívida bruta subiu de 69,8% do PIB no fim de 2016 para 74,4% em 2019.
Nos doze meses até julho de 2026, o déficit primário foi de R$ 89,3 bilhões, diante de R$ 1,15 trilhão em gastos com juros. Com 51,1% da Dívida Pública Federal indexada à taxa Selic, mudanças nos juros afetam rapidamente o estoque da dívida. O Banco Central calculou, em 2024, que um aumento de um ponto percentual nos juros, mantido por doze meses, acrescentaria cerca de R$ 50 bilhões ao estoque.
A relação dívida/PIB também é influenciada pelo crescimento da economia. Quando os juros avançam mais rapidamente que o PIB nominal, a dívida pode crescer mesmo sem novas despesas. Entre 2003 e 2010, o PIB cresceu 4,1% ao ano. Para o período atual, a Selic está em 14% e o PIB é projetado em 1,9%.
Não há limite universal
Não existe um percentual único de dívida a partir do qual um país necessariamente quebra. Um estudo publicado em 2010 por Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff associou dívidas acima de 90% do PIB a crescimento médio de −0,1% ao ano. Em 2013, Thomas Herndon encontrou problemas nos cálculos, incluindo a exclusão de países e anos de crescimento elevado.
Após a correção, o crescimento médio dos países com dívida acima de 90% foi calculado em 2,2%. Um trabalho do FMI, assinado por Pescatori, Sandri e Simon, concluiu em 2014 que não havia evidência de um limiar específico de dívida que comprometesse de forma dramática o crescimento de médio prazo.
A trajetória da dívida, a moeda em que ela é emitida e o custo dos juros são, portanto, elementos centrais para avaliar as contas públicas. A análise sustenta que o debate não deve considerar apenas o tamanho da dívida, mas também quem recebe os pagamentos financeiros.



