O mercado de crédito privado pode enfrentar uma mudança a partir de 2027, quando começa a concentração de vencimentos de dívidas corporativas. Um levantamento da Credit Guide estima que R$ 752 bilhões vencem até 2029: R$ 195 bilhões em 2027, R$ 247 bilhões em 2028 e R$ 310 bilhões em 2029. O cálculo inclui Certificados de Recebíveis Imobiliário e do Agronegócio (CRIs e CRAs).
A expectativa é que parte dessas dívidas seja substituída por novas emissões. Com mais papéis no mercado, as empresas podem precisar oferecer prêmios maiores para atrair investidores. Nesse cenário, o preço dos títulos já emitidos tende a cair, o que aumenta a remuneração oferecida pelos papéis novos e pode gerar perdas para quem vender os antigos antes do vencimento.
Marcação a mercado e mudança na demanda
A perda aparece na chamada marcação a mercado, que atualiza o valor dos títulos conforme as condições do mercado. Sergio Omati, sócio da Credit Guide, afirma: “Quando você está posicionado em uma debênture que o spread abre, você tem uma perda na marcação a mercado”.
O movimento representa uma inversão em relação ao que ocorreu até o início deste ano. Os juros altos aumentaram a procura por crédito privado, especialmente por ativos isentos de Imposto de Renda, como debêntures incentivadas, CRIs e CRAs. A demanda reduziu o spread, prêmio adicional exigido pelo investidor para assumir risco de crédito em comparação com um título público.
A procura por debêntures incentivadas também foi influenciada pela Medida Provisória (MP) 1.303, que ameaçava acabar com a isenção de Imposto de Renda desses ativos. A expectativa levou investidores a comprar esses papéis em massa, fazendo com que alguns passassem a pagar menos que títulos privados. O movimento resultou no chamado spread negativo.
Para Gabriel Nakaya, analista da Nord Investimentos, a demanda tende a perder força. A Selic em 13,75% reduz o interesse por títulos privados e pressiona o valor de mercado dos papéis já mantidos nas carteiras. Ele ressalta que esse efeito só atinge quem não permanece com o título até o vencimento.
Casos de recuperação judicial envolvendo Habib’s, Casas Bahia e Braskem também aumentam a percepção de risco. Nakaya afirma que os spreads podem continuar subindo. Segundo o analista, os fundos de crédito começaram o ano com captações relevantes, mas o ritmo diminuiu, e houve mais resgates do que entradas de recursos em abril, maio e julho. Ele relaciona o início das saídas aos episódios de recuperação judicial de Raízen e GPA.
Oferta, resgates e liquidez
A Sparta avalia que o maior volume de vencimentos, combinado com menor procura por crédito privado, não leva necessariamente a spreads maiores nem significa, por si só, aumento do risco de crédito. A gestora destaca que o total de dívidas que vence não corresponde obrigatoriamente ao mesmo volume de dinheiro novo necessário para refinanciamento.
Na avaliação da casa, mais empresas buscando refinanciar dívidas podem pressionar os spreads, reduzir prazos e elevar o custo das novas captações. Ao mesmo tempo, o mercado tende a selecionar mais os emissores, especialmente em um ambiente de juros e riscos elevados.
A capacidade de compra dos fundos também não depende apenas de novas captações. Os títulos que já estão nas carteiras pagam juros, amortizações e vencimentos, devolvendo recursos que podem ser reinvestidos, desde que não haja resgates.
Ricardo Leite, diretor de Alocação da Barsi Investimentos, não vê uma crise de crédito neste momento. Para ele, o mercado pode estar deixando um período de forte compressão dos spreads e voltando a remunerar de forma mais adequada o risco de crédito. O gestor observa que a migração ocorre para ativos de menor risco e maior liquidez, e não por ausência completa de demanda.
Os fundos de renda fixa responderam por 99,1% da captação líquida da indústria no ano. Até agosto, a categoria recebeu R$ 154,5 bilhões, com destaque para fundos de baixa duração e crédito livre, que captaram R$ 74,5 bilhões.
Pós-fixados ganham espaço
Com a taxa básica em 13,75% ao ano, manter parte da carteira em instrumentos líquidos tem custo de oportunidade menor, segundo a Barsi Investimentos. O caixa, nesse ambiente, continua oferecendo remuneração.
A liquidez também pode permitir novas aplicações caso a Selic caia e a bolsa passe a apresentar uma relação de risco e retorno mais favorável. Para a Sparta, porém, o crédito privado ainda oferece pouco prêmio de risco em ativos com spreads comprimidos. A gestora afirma que prioriza liquidez e seletividade, especialmente nos ativos não incentivados.



