SÃO PAULO — As 12 empresas de ônibus citadas na Operação Vectura Corrupta operam todas as linhas de distribuição local da capital paulista, voltadas aos deslocamentos dentro dos bairros e entre regiões próximas. Juntas, elas administram 510 linhas municipais, o equivalente a 38% da rede de ônibus da cidade.
A investigação do Ministério Público apura suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público. Nesta quinta-feira (17), foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão e 16 de prisão temporária.
Empresas e participação no sistema
Das 22 empresas que operam o sistema municipal, 12 são citadas na investigação. Nesta fase, as medidas cautelares atingiram pessoas ligadas à A2 Transportes e à Transwolff. As empresas listadas são Viação Transcap Transportes, atualmente Bless; Alfa Rodobus Transportes; Transwolff Transportes; A2 Transportes; Imperial Transportes; Move Buss Transportes; Pêssego Transportes; Allianz Transportes, atualmente Allibus; Transunião Transportes; Qualibus Transportes, atualmente UPBus; Norte Bus Transportes, integrante do Consórcio Transnoroeste; e Spencer Transportes, também integrante do consórcio.
As linhas municipais são divididas em três grupos: estruturais, de articulação regional e de distribuição local. As primeiras atendem grandes deslocamentos; as segundas conectam áreas de uma mesma região a corredores, terminais e linhas estruturais; e as últimas fazem principalmente trajetos dentro do bairro ou entre bairros vizinhos.
Dados da SPTrans mostram que as empresas investigadas operam em bairros das zonas Norte, Sul, Leste e Oeste. A região central é a única exceção. Em agosto de 2026, elas transportaram 72.947.123 passageiros, enquanto o sistema municipal registrou 177.902.234 embarques. A participação foi de cerca de 41% dos passageiros transportados pelos ônibus da capital naquele mês.
Avaliação operacional e medidas
O Índice de Qualidade do Transporte (IQT) mais recente da SPTrans colocou oito concessionárias do Sistema Local de Distribuição entre as últimas dez posições. A A2 Transportes ficou na última colocação entre as 40 operadoras, com média de 58,11 pontos. Pela classificação da SPTrans, índices abaixo de 60 são considerados ruins.
O proprietário da A2, Paulo Korek, foi alvo de mandado de prisão e é suspeito de atuar como testa de ferro do PCC. A Prefeitura de São Paulo informou que estuda uma intervenção na empresa.
Outras cinco empresas que conectam bairros periféricos ao restante do sistema tiveram avaliação regular no levantamento do primeiro semestre de 2026, com pontuação entre 60 e 75,99. Entre elas estão a Alfa Rodobus, que assumiu a operação antes concedida à UPBus, e a Transunião, alvo de outra operação em junho por suspeita de ligação com a facção.
A SPTrans também aparece entre as piores colocadas no ranking ao considerar a operação assumida após a intervenção na Transwolff. A prefeitura rescindiu os contratos e assumiu o controle da Transwolff e da UPBus em dezembro de 2024, após acusações de infiltração criminosa.
Alvos da operação
Entre os alvos está Milton Leite, ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo. Investigadores o apontam como dono de fato da Transwolff. Ele não foi encontrado em casa durante o cumprimento do mandado e, conforme as circunstâncias registradas no imóvel, passou a ser considerado foragido pela polícia.
Leite afirmou que estava viajando e negou estar foragido. “Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações”, declarou.
Também foram presos Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, e Danilo Marco Morgado Silva, ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande e candidato a deputado estadual.
A operação é realizada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Gaeco, do Ministério Público de São Paulo. Os mandados são cumpridos em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão.
A investigação é desdobramento das operações Contaminatio, realizada em abril de 2026, e Decurio, iniciada em agosto de 2024. A primeira apurou a estrutura de uma fintech administrada pela facção. A segunda começou após a apreensão de 30 quilos de drogas em Itaquaquecetuba e levou à identificação de chefes da chamada Sintonia Final e da fintech, que movimentou cerca de R$ 8 bilhões.



