A queda dos juros básicos pode fazer com que alguns Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) representem mais de 150% do CDI, mesmo sem aumento do retorno nominal. O efeito ocorre porque muitas operações combinam uma taxa de referência com um prêmio pelo risco de crédito.
Com a Selic em 13,75% ao ano e o CDI em torno de 13,65%, uma carteira que entregue CDI mais cinco pontos percentuais teria remuneração de 18,65% ao ano, equivalente a aproximadamente 137% do CDI. Se o CDI recuar para 10%, os mesmos cinco pontos levariam o retorno a 15%, ou 150% do CDI. Com CDI a 8%, a remuneração de 13% representaria 162,5% do CDI.
O investidor, nesse cenário, receberia menos em termos nominais, mas teria um retorno maior quando comparado ao principal referencial da renda fixa. A mesma lógica vale para uma carteira com CDI mais quatro pontos percentuais: com CDI de 13,65%, a remuneração seria de 17,65% ao ano, aproximadamente 129% do CDI; com CDI a 8%, passaria a equivaler a 150% do CDI.
O que pode mudar com os juros menores
Selic, CDI e spread de crédito são componentes diferentes. O CDI acompanha de perto os juros básicos, enquanto o spread remunera riscos relacionados ao devedor, ao prazo, à liquidez, às garantias, à estrutura, à subordinação e à possibilidade de inadimplência.
Por isso, a redução da Selic não implica necessariamente uma queda equivalente do spread. Ao mesmo tempo, spreads podem diminuir em um ciclo de flexibilização monetária, com maior concorrência por bons créditos. A inadimplência também pode subir, e os FIDCs têm carteiras com características distintas.
A subordinação das cotas e a pulverização dos ativos são apontadas como elementos de proteção dos fundos. A seleção dos gestores também é relevante para a estruturação e a análise dos riscos.
A indústria de FIDCs se aproxima de R$ 1 trilhão em patrimônio, impulsionada pela expansão do crédito privado, pela entrada de novos investidores e pelo desenvolvimento de estruturas mais sofisticadas. Nesse modelo, empresas antecipam recebíveis, gestores estruturam o risco e investidores recebem um prêmio pelo financiamento.
Assim, 160% do CDI não significam necessariamente um retorno maior. Se o CDI cair de 13,65% para 8% e o spread de cinco pontos permanecer, a remuneração nominal do exemplo diminuirá de 18,65% para 13% ao ano, enquanto o percentual relativo subirá de aproximadamente 137% para 162,5%. O resultado depende das condições de mercado, da carteira e dos riscos envolvidos.



