Mulheres estão ampliando sua participação no comando de propriedades e organizações do agronegócio em Minas Gerais. Elas assumem negócios familiares, profissionalizam a gestão, investem em sustentabilidade, agregam valor à produção e enfrentam barreiras para conquistar reconhecimento no setor.
Dados do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o número de estabelecimentos rurais mineiros dirigidos por mulheres passou de 59,3 mil em 2006 para 86,7 mil em 2017, crescimento de 46%. A Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Seapa-MG) afirma não ter uma série histórica própria sobre a presença feminina em cargos de liderança no agronegócio.
Gestão e novos negócios
Karina Seibt, de 55 anos, passou a atuar mais diretamente no grupo Sementes Gaúcha, negócio familiar com operações em Patos de Minas e Presidente Olegário. Depois de participar do curso Elas no café, em Patrocínio, ela convenceu a família a testar a produção de cafés especiais. O primeiro microlote alcançou 88 pontos e foi finalista de concursos em 2023.
O café especial representa 1% da produção do grupo, mas funciona como vitrine para o negócio. Neste ano, foram colhidas 28 mil sacas em 517 hectares. Karina também liderou a implantação de um reflorestamento de 40 hectares, com 24 mil mudas, e de uma biofábrica voltada à produção de insumos biológicos. O grupo tem seis fazendas, seis mil hectares e completa 50 anos em 2026.
Na Fazenda Triunfo, em Três Pontas, Rosiana Almeida, de 46 anos, assumiu a diretoria administrativa em 2022. A propriedade tem 76 hectares e produção estimada de duas mil sacas anuais de café. Com sua chegada, custos, combustível, horas de trabalho e despesas passaram a ser acompanhados por sistemas de gestão. A fazenda também criou um manual de cultura organizacional e ampliou a capacitação dos cerca de 30 colaboradores.
Sucessão e reconhecimento
Caroline Livorato, de 30 anos, assumiu a Agropecuária Livorato aos 21, após a morte do pai. Hoje administra mil hectares de lavoura e 1,1 mil hectares destinados à pecuária. A propriedade cultiva soja, milho e sorgo e iniciou, há dois anos, a recria de gado. Para este ano, a previsão é plantar 620 hectares de soja, com 43 mil sacas, e produzir 32 mil sacas de milho.
Em 2023, Caroline foi eleita a primeira mulher a presidir o Sindicato Rural de Santa Juliana. Ela afirma que a produtividade média da propriedade passou de aproximadamente 50 sacas por hectare para entre 67 e 70 sacas após mudanças no manejo do solo e a instalação de irrigação por pivô.
Especialistas apontam que sucessão familiar, acesso ao crédito, regularização fundiária, sobrecarga de trabalho e preconceito ainda dificultam a atuação feminina. Em 2025, dos 141,19 mil atendimentos da Emater-MG a mulheres rurais, 10,8% foram destinados a jovens.
Programas como o Faemg Mulher, criado em 2022, buscam ampliar a participação feminina. A iniciativa reúne 70 grupos em sindicatos de produtores rurais, alcançando pelo menos 700 mulheres, considerando uma média mínima de dez participantes por grupo. Em Uberaba, a associação Comadres do Agro reúne 54 produtoras do Triângulo Mineiro e promove parcerias, capacitação e ações coletivas.
Para as especialistas, a mudança depende não apenas da preparação das mulheres, mas também de ambientes capazes de reconhecer sua autoridade e garantir participação efetiva nas decisões.



