A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passou a incluir os riscos psicossociais e o bem-estar mental dos trabalhadores no gerenciamento de riscos ocupacionais. A mudança, em vigor desde maio deste ano, amplia o debate sobre saúde mental nas empresas e envolve gestão de pessoas, cultura organizacional, segurança psicológica e liderança.
O cenário ajuda a dimensionar o tema. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informa que 1 em cada 7 pessoas no mundo vive com algum transtorno mental, totalizando quase 1 bilhão de pessoas. Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por saúde mental, o maior número pela segunda vez consecutiva em uma década, conforme o Ministério da Previdência Social. A ansiedade respondeu por mais de 160 mil casos, cerca de 30% do total.
Um levantamento da Associação Nacional da Medicina do Trabalho (ANMT), com dados de janeiro de 2023 a novembro de 2025, apontou que os gastos com benefícios como auxílio-doença e aposentadoria por invalidez ultrapassaram R$954 milhões só no último ano. No mundo, depressão e ansiedade provocam a perda anual de 12 bilhões de dias de trabalho, com custo estimado de US$1 trilhão em produtividade.
Empresas precisam identificar e tratar riscos
A NR-1 não se limita à fiscalização ou à responsabilização dos empregadores. A norma orienta as organizações a avaliar riscos coletivos, adotar medidas concretas e registrar as decisões tomadas. O objetivo é deslocar o foco de uma percepção apenas individual sobre bem-estar para uma análise objetiva do ambiente de trabalho.
David Braga, CEO da Prime Talent e presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos de Minas Gerais (ABRH-MG), afirmou que a norma permitirá verificar se as empresas identificam e tratam os riscos psicossociais. Para ele, o tema deve envolver toda a organização, porque a saúde mental influencia retenção, engajamento e indicadores empresariais.
Lídia Abdalla, presidente do Grupo Sabin, defende que a cultura organizacional e a cultura do cuidado sejam bases para a implementação. Entre as medidas estão a revisão contínua de programas de saúde, capacitações e processos internos. A análise também deve considerar como as metas são cobradas, a estrutura oferecida para seu cumprimento e a abertura da liderança para ouvir as equipes.
A executiva destaca que a norma não elimina estratégias como metas e resultados. A proposta é avaliar se existe um ambiente psicologicamente seguro, no qual os trabalhadores possam fazer questionamentos e receber orientações claras.
Papel do RH ganha importância
A discussão também aponta uma mudança na atuação das lideranças, especialmente na área da saúde. Profissionais que antes chegavam aos cargos de comando principalmente por sua formação técnica e assistencial agora precisam desenvolver competências relacionadas à gestão de pessoas.
Em pequenas e médias empresas, a implementação pode começar com os recursos disponíveis. Braga cita pesquisas de clima, indicadores de turno e relatórios de ergonomia como instrumentos que podem ajudar a identificar problemas. As informações, porém, precisam resultar em ações sobre os gargalos encontrados, para evitar frustração entre os trabalhadores.
Para Abdalla, cultura, dimensão humana e segurança psicológica já integram a estratégia de proteção do capital das empresas. O desafio seguinte é transformar esses pilares em prioridade permanente, com ações de prevenção, e não apenas em respostas a momentos de crise.
Braga também defende a consolidação do RH como área estratégica. O debate sobre a NR-1 foi tema do terceiro episódio da nova temporada do podcast Mundo Lab-to-Lab, promovido pelo Lab-to-Lab Pardini, do Grupo Fleury. A conversa foi moderada por Roberto Santoro, presidente da unidade de negócios do Pardini, e contou com a participação de Abdalla e Braga.




