Manter todo o patrimônio em aplicações ligadas ao CDI não garante proteção completa, mesmo em períodos de juros elevados. Um estudo do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGVcef) aponta que a concentração no mercado brasileiro expõe o investidor à inflação, às oscilações do câmbio, à queda dos juros e à falta de diversificação.
A pesquisa, intitulada “Ir para o exterior é fundamental: por que a Selic alta não protege totalmente o patrimônio brasileiro”, foi conduzida por Claudia Yoshinaga, Francisco de Castro Junior, Ricardo Rochman e William Eid Junior. Divulgado nesta terça-feira (15), o estudo analisou a evolução de investimentos no Brasil e no exterior.
Inflação e câmbio reduzem o resultado
De acordo com a análise, R$ 100 aplicados no CDI em janeiro de 2000 chegariam a aproximadamente R$ 2.108 em julho de 2026, considerando um retorno nominal acumulado de 2.008%. No mesmo intervalo, a inflação acumulada foi de 382%. Depois do desconto da inflação, o valor corresponderia a cerca de R$ 437 em preços de janeiro de 2000, com retorno real acumulado de aproximadamente 337%.
O estudo também avalia o patrimônio em moeda forte. Um investimento de R$ 100 no CDI em dezembro de 1999 teria alcançado R$ 2.108 em julho de 2026, mas equivaleria a R$ 743 quando medido em dólar. Desde dezembro de 2004, o CDI acumulou 799% em reais e 370% em dólar. Desde dezembro de 2014, os resultados foram de 199% e 56%, respectivamente.
Na comparação com o crédito americano de faixa de classificação semelhante, o desempenho variou conforme o período inicial. Nas bases de 1999 e 2004, o CDI em dólar terminou em 743 contra 591 e 470 contra 393. Já na base de 2014, ficou em 156 contra 182. A pesquisa ressalta que, em dólar, o resultado do CDI apresenta quedas em vários anos, em vez de uma trajetória sempre ascendente.
A conclusão não é que o CDI tenha desempenho inferior em todos os períodos, mas que sua segurança se limita à estabilidade nominal em reais.
Queda dos juros afeta a renda futura
A taxa disponível hoje também não assegura a renda futura de uma aplicação pós-fixada. Quando o CDI está em 14% ao ano, R$ 2 milhões investidos nesse tipo de produto geram uma renda bruta esperada de aproximadamente R$ 280 mil por ano. Se a taxa recua para 10%, o mesmo capital passa a produzir R$ 200 mil, uma diferença de R$ 80 mil e redução de 28,6%.
Os títulos prefixados não eliminam esse risco. Se o investidor contratar uma taxa de 10% ao ano e as taxas de mercado subirem para 14%, continuará recebendo a remuneração contratada se mantiver o título até o vencimento. Nesse cenário, porém, haverá custo de oportunidade, porque novos investimentos poderão oferecer retorno maior. A venda antes do vencimento também pode levar a uma perda de valor de mercado.
Diversificação e investimentos no exterior
Para o estudo, investir fora do país acrescenta o dólar à carteira e permite acesso a ativos que não acompanham necessariamente os movimentos do mercado brasileiro. “A diversificação eficiente reduz o risco da carteira apenas quando seus componentes não perdem valor ao mesmo tempo e pelas mesmas razões”, explica a pesquisa.
Entre janeiro de 2011 e junho de 2026, o Ibovespa teve retorno negativo em 84 dos 186 meses analisados, o equivalente a 45,2% do período. Nesses meses, a queda média do índice foi de 4,4%, enquanto o CDI teve retorno médio positivo de 0,79%.
Nenhuma das classes domésticas avaliadas superou, em média, o CDI nos meses de baixa do Ibovespa. Os títulos indexados à inflação tiveram retorno médio próximo de zero e recuaram na metade desses meses. Os multimercados ficaram abaixo do CDI em 62% do período analisado.
O dólar foi o único ativo a apresentar compensação quando a Bolsa brasileira caiu. Nos meses de baixa do Ibovespa, a moeda americana teve valorização média de 3,11% ante o real, resultado 2,32 pontos percentuais acima do CDI. Ela recuou em apenas 19% desses meses.
A pesquisa também destaca a diferença de exposição ao setor de tecnologia: ele representa 35,1% do S&P 500 e 0,7% do Ibovespa.
Aportes regulares em dólar
O estudo comparou 80 períodos de dez anos iniciados em 2010 para avaliar investimentos regulares e aportes feitos após uma queda do dólar. Em todos os períodos, aplicar uma quantia em dólar todos os meses apresentou resultado melhor do que esperar um momento considerado favorável.
Ao final, quem investiu de forma regular acumulou 9,2% mais patrimônio do que quem aguardou uma queda de 15% do dólar para enviar o dinheiro ao exterior. A conclusão é que a proteção patrimonial depende de disciplina, e não da tentativa de escolher o melhor mês para investir.



