A inflação ainda não convergiu completamente para as metas, e economias aquecidas mantêm os bancos centrais diante da necessidade de recalibrar os juros. O choque do petróleo reforçou esse movimento, mas não foi o único fator considerado pelas instituições. A indicação predominante é de um aperto moderado da política monetária.
Europa e Estados Unidos mudam a trajetória
O Banco Central Europeu (BCE) elevou os juros em 25 pontos-base em junho, depois de avaliar que o aumento dos preços de energia poderia gerar efeitos secundários relevantes. A instituição manteve a orientação de decidir reunião a reunião, sem antecipar claramente os próximos passos.
Depois de uma pausa em julho, o BCE voltou a aumentar a taxa em setembro, para 2,50%. A sinalização indica pelo menos mais uma alta, o que levaria o ciclo a 75 pb. No mercado futuro, as expectativas apontam para três aumentos adicionais de 25 bp, com a taxa chegando a 3,25% ao ano e o ciclo total a 125 pb.
A inflação cheia e o núcleo estavam pouco acima de 2% em 12 meses antes dessas decisões. A recente reescalada do conflito Estados Unidos-Irã e dificuldades na oferta global de derivados de combustíveis ampliaram a preocupação dos mercados financeiros.
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) aumentou os juros em 25 pb na reunião de 16 de setembro. A decisão ocorreu após um período de incerteza sobre a condução do novo presidente da instituição, Kevin Warsh.
No mesmo período do ano passado, o Fed havia feito três cortes de 25 pb, reduzindo a taxa básica de 4,50% para 3,75% ao ano, principalmente pelo temor de alta do desemprego. No início de 2026, os mercados ainda projetavam dois cortes adicionais de 25 pb.
A mudança de direção foi associada a três fatores: o choque inesperado do petróleo, a resistência da atividade econômica e a postura mais firme de Warsh em relação à meta de inflação. O investimento em inteligência artificial também contribuiu para o crescimento acelerado.
A indicação atual dos integrantes do comitê é de mais uma alta, mas os mercados futuros projetam outras elevações que somariam 75 pb. Nesse cenário, o ciclo total chegaria a 100 pb, e a taxa básica passaria de 3,75% para 4,75%, teto do intervalo de juros. A pressão sobre petróleo e derivados, a queda lenta da inflação e a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) estão entre os fatores que sustentam essa expectativa.
Japão segue em processo de normalização
O Banco Central do Japão (BoJ) está em uma situação diferente. Depois de anos combatendo o risco de deflação, o país voltou a registrar inflação próxima da meta de 2% com a combinação de políticas fiscal e monetária expansionistas e os efeitos da inflação global da pandemia.
A normalização começou em março de 2024, quando a taxa estava em -0,10% e o BoJ também abandonou ferramentas como o controle da curva longa de juros. Desde então, foram seis altas, e o juro japonês chegou a 1,25% ao ano. O ciclo acumulado nesses três anos foi de 135 pb.
A instituição passou a demonstrar preocupação com a possibilidade de a inflação superar a meta de 2% e com a desvalorização do iene. Mesmo com os efeitos negativos do petróleo sobre uma economia dependente de importações, a atividade surpreendeu positivamente, em parte pelo impulso do ciclo global de inteligência artificial.
As taxas seguem abaixo do nível neutro e negativas em termos reais. As curvas de mercado projetam juros de 2,00% em julho de 2027, ante os atuais 1,25%. A expectativa é de que esse patamar seja alcançado antes do previsto pelo mercado, com altas de 25 pb por decisão.
México reduz vantagem sobre os Estados Unidos
O México continuou cortando os juros após o choque do petróleo, seguindo a orientação adotada anteriormente. A taxa básica caiu do pico de 11,25% para 6,50% em maio desse ano.
O ciclo foi favorecido pelo ajuste fiscal depois da eleição presidencial de 2024, pela queda da inflação e pela desaceleração da atividade econômica. A alta dos juros nos Estados Unidos, porém, deve reduzir o diferencial entre as taxas dos dois países ao menor nível histórico.
O peso já apresentou desvalorização nas últimas semanas. As curvas de mercado indicam que o Banxico poderá elevar os juros em cerca de 100 pb nos próximos 12 meses, enquanto a comunicação do banco central mexicano apontou para a manutenção da taxa.



